quarta-feira, 30 de julho de 2008

Na Vereda

Corro que nem rato assustado
Esbarrando e ferindo-me contra muros e obstáculos,
Apanhado na armadilha, não tenho como escapar.

Não tenho para onde fugir!

Mas como fugir de mim próprio?

O percurso está definido,
Nós o traçamos passo a passo.
Dum modo ou outro acabamos por voltar à vereda que nos foi mostrada,
Não temos escapatória.

Apenas a coragem nos mantém a visão clara
E o discernimento para continuar fazendo opções.

Afinal sempre podemos optar por nos rebelarmos
ou por nos resignarmos.

Ou podemos esperar tranquilamente...

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Mutismo

Que posso dizer?...

Minha vereda segue entre um prado florido
E uma parede de silvas espinhosas.

Colhemos dos jardins que plantamos.

Talvez tenha eu sido um mau jardineiro
Nas escolhas que fiz.

Arrependimento?...
Nunca me arrependo.
Tudo serve de aprendizagem.

Lamento?...
Ah sim!
Lamento que tudo o que parecia ser belo e florido,
Se tenha tornado acre e vil.

Mas logo sacudo a cabeça ao vento
E este me traz o Amanhã.

E o Amanhã começa hoje,
Começa agora.

Não iria ficar roçando nos espinhos ignóbeis da arrogância filha da mesquinhez.

Meu olhar fita longe,
Fita Alto!

Minhas asas anseiam por se estender em novos voos...
Mais Altos...
Sempre mais Altos!

O Trono a meu lado está vago...

Avança pois, Donzel gracioso,
Ousa ocupá-lo!

Teu será por Direito,

Se o souberes dignificar.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Do Trono

O Dragão jaz ferido no Alto da Montanha

Ainda...

O Trono vazio a meu lado
Quem o virá ocupar?
Quem se apresentará com Virtude para o desafio?
Que donzel se aventurará?
Ousará...

Será Princípe?
Ou simples escudeiro?

Que dois olhos negros vejo eu entre a névoa da madrugada?
Que sorriso cândido se dissimula entre os véus de Apóphis?
Que esguio corpo se insinua entre os mistérios da Aurora?

Estendo a mão no negro manto da Noite,
O seu toque gélido me murmura os imensos segundos da minha espera.

Fiel companheira, Solidão,
Que profetizas para nosso Reino tão desolado?

O Donzel se apresenta perante nós
... ... ...
Prosseguiremos os Ritos?

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Tanto Assim...

Eis-me!

Envolto no meu negro manto da noite.
Trono de todas as provações,
Desfilando uma a uma,
Metódica e impassivelmente.

Minhas mãos desenham formas
Que meus olhos cansados não querem ver,
Doridos que estão de chorar as mágoas alheias

Porque haveria de me importar com o meu rumo
Com o destino dos meus passos?

Que conto para o fresco hálito da madrugada?
Na minha ausência as estrelas já não estarão lá.
O mundo terminará no meu fim.

Que importa o depois?

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Não

Eu não existo!

Eu estou aqui mas não estou cá.

Não existo além das palavras que escrevo, das ideias que me desfilam na mente e ganham existência nos escritos em que as transmito.

Eu parei quando o Tempo para mim parou.
Fiquei algures entre mim e eu.
Algures num momento inserto entre a vontade de chegar a parte nenhuma e nada.

Eu respiro nas ideias,
Pulso nos sonhos,
Ganho forma nas palavras.

Eu não sou mais que a minha escrita.

Eu não tenho um corpo; habito um organismo humano.

Não é o sopro da vida que me sustem; eu não tenho vida.

sábado, 19 de julho de 2008

Saudade (ainda)

É a saudade, porra!!!

O Amor não esquece

Saudade

Bolas!!!

Não é fraqueza
Não é pieguice
Não é hipocrisia

É saudade... Pura e simples

Saudade

Porque o amor não se perde
O amor não esquece.

E se eu te amei
Ainda te amo.

E a ausência magoa, fere, dói

E o abandono... Ah! Vil sentimento... Irreparável perda

E, ficar assim na noite
Sob o olhar prata do luar
No silêncio dum mundo adormecido,

As lembranças acorrem, assaltam, rasteiram,

Deixam o Coração de Dragão exposto ao Frio do Vazio.

Desabam os cumes das montanhas
Perecem os rios, secam nas fontes
Os mares recuam, deixando as praias sós... desertas... mudas.

As minhas mãos perdidas no negro do desamparo
Buscam nada

sexta-feira, 18 de julho de 2008

C'est la Vie

Um passo...
Outro passo...
Estender as asas...
E voar!

C'est la vie!

Saltitar entre os sonho e a realidade.
Viver meio cá meio lá.

Sem saber de que lado é o real

De que lado sou mais Eu

De que lado vem a Vida até mim e me mostra a Felicidade,
E me mostra o Amor,
E me mostra a Paz.

No meu Lar
Em que não há cima nem baixo,
Onde o lado e o acima
Se confundem num mesmo espaço que tem o mesmo sentido,
O mesmo propósito.

Eu quero ficar!

Onde o dia é sempre dia e a noite é sempre dia.
Também.

Eu quero morar no limbo!
Sem acordar.
Sem sentir o meu corpo envelhecendo dorido.
Sem sentir o fardo de ter de viver.

Sem... Sentir...

C'est la Vie...

Apenas...

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Olhando Acima

Ao cair no abismo
Ao bater no fundo
Apenas resta olhar para cima... e começar a subir.

Se me arrancaram as asas, ainda me restam as garras.
E com elas irei trepar de novo,
escolho a escolho,
em direcção ao topo.

Os Céus serão meus, de novo!

terça-feira, 15 de julho de 2008

Não Soçobrar

As Fúrias me assediam!

Olho em volta e escuto.
A paisagem desolada duma depressão colectiva se sobrepõe à minha coragem de prevalecer.
Vacilo e falta-me o fôlego. Estarreço e espero!

Uma angustiante irritabilidade me assola, negando a minha paciência de escutante atento e prestativo.
O desapontamento é uma evidência indisfarçável, mas cautelosamente escondida.
Não quero fugir, nem me ausentar. Espero apenas que o mundo se aquiete... e me deixe respirar.
Eu sei que posso arrostar o fardo, desde que as forças não me sejam traídas por aqueles que deveriam estar ali apenas para me lembrarem do caminho.

Derrotado o corpo a alma esbraceja à tona, tentando não se afundar.

Não soçobrar!

domingo, 13 de julho de 2008

Sentido Sem Sentido

Queda livre no vazio.

Por vezes o tempo é uma experiência anacrónica. Sem sentido. Desconcertante.

Por vezes o tempo é uma experiência tola. Indecifrável.

Por vezes o tempo é apenas um estar. Respirar tão somente. Sem consciência...

Por vezes fico para aqui, olhando em redor, sem nada observar, sem nada entender. É então que o tempo começa a fazer sentido, no seu desatino.

Vou e venho. Escovo os dentes. Oiço uma música antiga. E retomo o poema.
Onde fiquei?!... Que importa. O sem-sentido impõe-se à racionalidade do momento.

Ausento-me de mim e o tempo deixa de existir... deixa de contar... deixa de correr.

Mas depois o reencontro mais adiante, mais tarde. Aí ele me recorda a usa inexorabilidade.

O tempo tem poços imensos, em que caimos inadvertidamente. Perante um negro imenso duma tela em branco. Absorto tento não sucumbir ao marasmo, esperando que que a razão me resgate de volta à insanidade ignóbil duma existência errática.
A dança louca duma cavalgada feérica.

Vacilo.

Bamboleio.

Aterro disforme num charco esquecido pelas monções idas.

Oh Senhor! Meu Senhor! Quando virão as próximas naus?
Quando passarão de novo essas cadeias que me levarão para uma nesga de mundo mais além.
Um espreitar de vida.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Três Dias

Evitando escolhos, lutando contra pensamento errático, superando novas decepções, levei três dias para escrever um curto texto que noutras circunstâncias levaria apenas uma hora. Cheguei mesmo a ponderar desistir do tema e avançar para outra proposta. Contudo esperei. Resignei-me a continuar persistindo.
Mas consegui!
Publiquei o texto já madrugada dentro no meu outro blog. E fui dormir.

Neste momento os meus braços tremem, as minhas mãos estremecem frente ao teclado. A cabeça atafulha-se de pensamentos erráticos que se amontoam em novelos desgrenhados. O corpo arde como possuido por uma corrente eléctrica que o percorre revolvendo-me as entranhas. Sinto-me nauseado e desconcentrado. Mas...
Continuo escrevendo, embora esteja constantemente voltando atrás para corrigir erros.

Debaixo da língua dilui-se um comprimido destinado a dissipar os efeitos incómodos de mais um ataque de ansiedade. De tão habituais, tornaram-se quase uma rotina; algo com que me vou habituando a viver.

A doença ajuda-nos a aprender a ser pacientes.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Ainda outro Abismo

Quantas surras? Quantas sovas? Quantas tareias a vida ainda terá guardadas me esperando?
Quando creio que poderei respirar um pouco, retomar fôlego... eis que a vida logo cuida em me presentear com mais um dissabor, com mais um perversamente requintado desaire.

E o Dragão, que se julgava refugiado no seu Ninho, acaba de novo acossado e ferido. Prostrado na ignomínia de nada poder fazer em sua defesa, senão esperar que os Tempos lhe facultem a possibilidade de mostrar de novo o seu valor.
Mas ele é paciente e sábio. A sua hora chegará.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Stagnatus

Parou...
Parou ... de novo, parou...

O Tempo, o ânimo, a vida.
É um diálogo surdo com um pensamento errático e sem motivo.
Um olhar perdido no horizonte das paredes do meu quarto. Acolhedoras. Protectoras. Imóveis... sinistramente imóveis. Acolhedoramente amigáveis.

A música me embala...
O sonho dança no devaneio lúdico do espírito que se refugia na sua liberdade incorpórea, em que se desresponsabiliza das necessidades dum corpo físico.

Tudo aquilo que não deverei fazer é exactamente o que faço, desde que provenha ou contribua para uma inércia letárgica e doentia. Cómodo refugio de inimputabilidade.

Arrasto a noite madrugada adentro, até à exaustão... até aos primeiros raios de Ré. E envolto no ouro revigorante da Sua Divina Luz, estendo-me e durmo.
O dia é um convite ao sono. A fuga possível... desejada. Cínica.

Sono protector... Sono amigo, que afasta de mim tudo e todos. Sono desculpabilizante. Permissor duma ausência ininputável.

Paro... Rendido à traição de abandonar os meus sonhos...

Permaneço uma esguia sombra de mim, esgueirando-se amedrontada pelos cantos escusos e sombrios, dum exílio reivindicado como salvação.

Eu sou um insulto de mim

domingo, 6 de julho de 2008

Espraiamento Deserto

Não me apetece escrever.
Não me apetece falar.
Não me apetece dizer seja o que for.
Disperso. Divago entre mim e eu. Sem rumo ou propósito. A miséria humana de vegetar num corpo vivo.

Não estou sendo melodramático. Apenas gostaria que por vezes o meu pensamento deixasse de pesar que nem chumbo. Sentir um alívio na cabeça. E uma calmaria me diluindo o corpo. Não este frenesim que me corre pelos membros e pulsa no meu ventre e no meu peito, como uma criatura estranha tentando saltar para fora. Tentando rebentar em vida e horror.

O que pretendo da vida?
O que pretendo eu da vida?
Gostaria de saber que rumo é este.
Que bússula guia os meus passos? Qual o propósito desta empresa?
Apenas respirar e comer para me manter vivo?
Tão pouco. Tão sem ambição. Ou talvez tão embutido de enfado, por uma espera que nunca deveria ser tão longa.

Estendo os membros. Estendo os braços. Estico as mãos até ao horizonte e para lá, até ao infinito. E nada toco. Nada encontro. Tudo o que se insinua acaba por não passar de mera ilusão. Miragem informe mas aliciadora. Profecia duma fé sem causa.

Eu quero apenas dormir um sono tranquilo. Um sono longo. Tão longo quanto o Tempo. E tão pacífico como o Vazio.
O Sono do meu Senhor. Meu Amado Senhor Anúbis.

Nada.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Torpe Noite

Iniciada a noite num ataque de ansiedade, em nada me tranquilizou o constactar que a coutada, onde pretendia ir caçar, estivesse fechada. Toda a comitiva teve de se dispersar em jogos de reconhecimento, buscando, nos terrenos disponíveis, algumas presas que compensassem a empresa.

Mas disperso e cansado...
Que irei dizer ainda?
O sono toma de assalto a minha vontade, que se degladia com um ténue desejo de alguma escrita produzir. Mas como? Como concentrar a criatividade quando o corpo me suplica tréguas?

Os batedores e atiradores encontraram belos troféus que perseguem com ânimo e sucesso. Mas eu não consigo mais que me arrastar no meu pavilhão de caça.
A noite fresca e graciosa convida ao deambular sonhador, sem rumo, pelas veredas labrínticas do bosque encantado pelo luar.
Mas a mim apenas o lângor controla.

Terei de abdicar, desta vez. Renunciarei, até ao amanhecer. Amanhã virei avaliar os despojos da caçada.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

O Docemente Negro Fresco Ar da Noite

3.30h.
Levanto o estore da janela aberta e espreitando para fora, inspiro profundamente o ar fresco da noite. Revigorante! Estou no meu reino!

Volto para o meu posto frente ao computador e assumo a posição de comando. A viagem vai começar.

Sou livre de ficar ou partir. Sou livre de escolher a hora de dormir ou despertar. Sou livre de escrever ou ficar apenas ouvindo a música me embalando os sonhos, como banda sonora para as epopeias que minhas muitas personagens vivem nos múltiplos mundos em que me desdobro.

A nossa vida está na nossa vontade. Fazemos com as mãos o que queremos.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

AutoBullying

Títere da minha auto-crueldade.

Arremessado, rasteirado, aviltado, seduzido, insultado, corrompido, torturado... Eu me nego a fuga de mim próprio, na condenação de não me viver eu.

Rastejo, suplico e imploro, sabendo à partida que não há resposta aos meus rogos. Farsa pérfida e abjecta, cuja finalidade é justificar uma existência não vivida.
Esvaziada de ser.
Esvaziada de identidade.

A perversidade obscena de me amesquinhar numa auto-comiseração boçal. Fanfarronice grotesca dum mártir de causa nenhuma.

E porquê?...
Talvez apenas para me lembrar que ainda existo. E que importo.